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“Às vezes, se apaixonar é a atitude mais corajosa que alguém pode ter.”

Kiera Cass, A Coroa

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[Resenha] A mulher com olhos de fogo, de Nawal El Saadawi


Nesse livro a ficção se mistura com a realidade e traz uma história cheia de sofrimento, abusos e resignação. Enquanto Firdaus espera pelo dia da sua morte, a autora resolve ir à prisão de Qanatir, no Egito, e ouvir a sua história. A partir dessa visita surgiu o livro “A mulher com olhos de fogo”.

O ano é 1974 e Firdaus espera pela morte. Após ser condenada a forca por confessar o assassinato de um homem, ela não apresenta nenhum vestígio de que deseja viver. Não por culpa, ou arrependimento. Firdaus mataria novamente, sem parar para pensar, se saísse daquela prisão. Eles têm medo de mulheres como ela, é por isso que ela foi condenada a morte. A lei pune mulheres como ela.

Desde sua chegada a Qanatir, Firdaus se negava a falar com qualquer pessoa. Foi só no seu último dia na prisão que ela decidiu contar sua história. Um relato rápido e que não deixava espaço para perguntas. Foi nesse dia que a autora descobriu o que tinha levado Firdaus até a prisão e feito com que ela aceitasse o seu destino sem lutar pela vida. O que, no início, poderia parecer resignação, passou a ser força. A mulher naquela cela estava cansada de ser subjugada por tantos homens e decidira lutar, mesmo que isso a levasse a pena de morte. Firdaus jamais aceitaria ordens de outro homem.


A vida não tinha sido fácil para ela. Firdaus trabalhava no campo desde cedo para ajudar a família. A comida era escassa e o seu pai, um pobre lavrador sem instrução, estava sempre nervoso. Não demorou muito para que ele começasse a bater na mãe. Mesmo que não houvesse comida para ela e os irmãos, sempre havia um prato de comida pronto para quando seu pai chegasse a casa. Sua mãe não era diferente. Houve uma época em que Firdaus recordava de ser tratada com carinho, mas logo a mãe se tornou tão bruta quanto o pai. Certa vez, sua mãe trouxe uma mulher na casa, ela trazia uma faca pequena. Nesse dia, Firdaus teve as genitálias mutiladas. Ela chorou a noite inteira e não foi mais enviada ao campo. Seu trabalho era sempre perto da casa.

Um tio mais velho, que ensinou Firdaus a ler e escrever. A garotinha via no tio a figura paterna que ela não encontrava em casa. Era um bom homem. Até que Firdaus crescesse. Sempre que estavam sozinhos, ele aproveitava tocar a sobrinha.

Alguns anos depois, Firdaus foi forçada a se envolver em um casamente, com um homem muito mais velho do que ela. Um homem avarento que tratava de ofender e depois bater em Firdaus sob qualquer pretexto. A primeira vez que ele bateu nela, a jovem fugiu para a casa do tio, mas assim que chegou a casa o tio e esposa trataram de convencê-la a voltar. Um marido poderia bater na esposa para corrigi-la, Firdaus tinha que aceitar. Quando não pode mais aguentar, Firdaus fugiu mais uma vez, mas não foi para a casa do tio. Andando pela rua com o rosto ensanguentado e cheio de hematomas, ninguém se ofereceu para ajuda-la. Foi quando encontrou um homem bondoso que resolveu acolhe-la em sua casa até que Firdaus encontrasse um emprego. O homem logo passou a abusar da jovem e mantê-la trancada em casa. Com a ajuda de uma vizinha, Firdaus fugiu.

Perambulando pelas ruas, Firdaus entendeu que sempre teriam homens prontos para abusar dela. Homens que pagariam por isso. Sem escolha, Firdaus foi mais uma vez jogada na mão de homens, de todos os tipos, que queriam apenas um corpo bonito. A vida de Firdaus foi construída em cima dos abusos e das vezes em que ela precisou se curvar para a vontade de homens que não enxergavam nas mulheres nada mais do que um corpo ou um meio de subir na vida.



Foi assim que ela se viu presa a um homem perigoso que passou a controlar tudo o que ela ganhava dos seus clientes. Um homem que acumulou mais contatos e importância do que Firdaus, a ameaça estava sempre ali, pronta para destruir sua vida mais uma vez. Até que uma noite, Firdaus descobre que uma vida inteira de resignação tinha sido o suficiente para lhe dar coragem. Matar aquele homem tinha sido por legitima defesa, no início. E Firdaus se surpreendeu com a facilidade e tranquilidade com que tinha agido. Ela nunca mais se curvaria para homem nenhum.

Agora ela sabia, era por isso que eles a mantinham presa. Era por isso que eles a mataria. Se Firdaus voltasse para as ruas, ela mataria todos eles. A lei tinha sido criada para punir mulheres que se rebelassem contra os homens. Mulheres como Firdaus, que tinham criado coragem para colocarem um ponto final nas ameaças, nas agressões e nos abusos que as todas foram ensinadas a tolerar.

Um livro curto, mas que carrega uma história surpreendente. A história de uma mulher que representa tantas no mundo. E que por uma última chance de mostrar que jamais abaixaria a cabeça novamente aceitou a morte com coragem.