[Resenha] A Guerra da Papoula, R. F. Kuang

Fang Runin, uma jovem órfã de guerra, no Império Nikara, está desesperada para fugir do destino que sua família adotiva deseja para ela: um casamento arranjado com um homem terrível. Pobre e discriminada por sua pele escura, Rin vê o ingresso na Academia de Sinegard, a escola militar mais prestigiada do Império, como única alternativa para sobreviver. Rin virou noites para conseguir estudar tudo que era necessário e, finalmente, conseguiu ingressar na academia.
Em Sinegard, os alunos aprendiam que o Império esteve sempre em guerra ou na iminência de começar uma. Por isso, eram preparados para enfrentar o inimigo. Além da sua dificuldade com as matérias, Rin precisa enfrentar a hostilidade e o desprezo de alguns professores e alunos, vindos da elite, que acreditam que esse não é o seu lugar.
Logo, Rin descobre uma matéria menosprezada na academia: o estudo do Folclore. Com a ajuda de Jiang Ziya, um mestre um tanto irreverente e rejeitado pelos demais professores, Rin encontra um aliado e descobre um mundo inimaginável: o xamanismo. Através do ópio extraído da Papoula, ela alcança o Panteão, o plano habitado por deuses, onde ela poderá acessar o poder de um deus e manifestá-lo no mundo dos humanos. No entanto, o Mestre Jiang alerta sobre o risco de criar laços com os deuses, pois o destino de todos era acabar enlouquecendo. Ainda assim, Rin vê sua alma se conectar à deusa Fênix, a deusa fogo, sedenta por vingança.
Quando a Terceira Guerra da Papoula explode no Império, a jovem precisará decidir:se irá se render aos pedidos da Fênix e deixar que o poder a consuma, ou se irá lutar ao lado de seus colegas. Perder a sua sanidade pode ser a única escolha para salvar o Império de um massacre. Mas valerá a pena?


Ao longo da leitura, conhecemos o passado de Nikan e suas guerras já travadas. Desde o auge do Império, com o Imperador Vermelho, há a Segunda Guerra da Papoula, vencida com a liderança da Trindade: o Guerreiro, a Víbora e o Guardião. Três heróis com poderes divinos. Com a ajuda dos deuses, a Trindade subjugou o inimigo e assumiu o comando do Império.
O leitor notará traços da realidade nessa história, pois a fantasia carrega elementos que contam o passado da China. Como a invasão da Federação Mugen, descrita no livro, remete às Guerras Sino-Japonesas (1894-1895 / 1937-1945). Essa relação conturbada entre a China e o Japão é apresentada nos dois conflitos de Nikan e Mugen durante as Guerras da Papoula. Onde, Nikan representa a China e Mugen representa o Japão.
O próprio nome da série também remete a um passado histórico. “A Guerra da Papoula” pode ser associada às Guerras do Ópio, travadas entre a China e o Ocidente entre os séculos XIX e XX.
"Se você fosse a vítima, o que poderia dizer para que seu torturador o reconhecesse como humano? Como poderia fazer o inimigo reconhecê-lo e ponto final? E por que o opressor se importaria? A guerra é baseada em noções absolutas. Nós ou eles. Vitória ou derrota. Não há meio-termo. Não há misericórdia. Não há redenção."


"As crianças deixaram de ser crianças quando você colocou uma espada em suas mãos. Quando as ensinou a lutar uma guerra, em seguida as armou e colocou-as na linha de frente, eles não eram mais crianças. Elas eram soldados."
“A Guerra da Papoula” é uma fantasia adulta, com grande participação militar, deuses cruéis e jogos políticos. A história também é carregada de críticas sociais que nos fazem pensar no quanto dos dias atuais a autora adicionou à história. É impossível olhar para as origens da Rin e não entender que a luta das minorias não começou ontem e que a ganância pelo poder é tão velha quanto.
Eu amei essa história! Não tem um único detalhe que tenha me incomodado. A autora tem uma escrita que flui muito bem, mesmo quando ela está descrevendo o passado histórico do Império Nikara. A forma como a história começa não chega nem perto de entregar detalhes do que irá acontecer no último capítulo deste livro. O que, na minha opinião, é surpreendente! O final vem para mostrar que nada era como esperávamos e deixar um gancho brilhante para a continuação. Não à toa foi considerada uma das 100 melhores fantasias de todos os tempos pela revista Time.
"A guerra não determina quem tem razão. Ela determina quem sobrevive."
Para os amantes de uma boa fantasia, esse livro é uma excelente indicação! Para aqueles que gostam de uma história de guerra com elementos fantásticos, também é uma ótima indicação! Agora, se você, assim como eu, caiu de paraquedas nesse universo, saiba que você poderá ser surpreendido e acabar encantado pela narrativa.
Leitura mais do que indicada!
Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐💜


