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[Resenha] Eu Perdi o Rumo, de Gayle Forman

É uma história que une três pessoas que se sentem perdidas, mas que vão descobrir que não estão sozinhas.

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Por que estamos lendo "O Conto da Aia"?


Não faz muito tempo desde que a quantidade de postagens e vídeos sobre esse livro me deixou curiosa para entender o que havia de tão interessante nele, levando em conta que todos estavam falando sobre uma história que foi publicada em 1985. Além disso, como não acompanho séries, também não conhecia nada sobre The Handmaid's Tale até surgirem os comentários sobre o livro. Comprei o livro e li em um período que deixou a leitura ainda mais difícil para mim. Não estou dizendo que o livro é ruim, pelo contrário! O problema foi acompanhar a história enquanto estava vendo diariamente as brigas na internet e até mesmo nas ruas por causa do segundo turno das eleições. Mas pode ser isso que me fez compreender tão bem a história e perceber a proximidade com a nossa realidade.

Em O Conto de Aia somos apresentados ao novo governo dos EUA. Após um ataque que cominou no assassinato do presidente e de todos os membros do congresso, o exército declara estado de emergência. Um grupo de fundamentalistas cristãos assume o poder e suspende a Constituição, afirmando que só assim poderiam instaurar a ordem novamente. Logo, o país passa a ser chamado de República de Gileade.

O novo governo adotou novas regras sociais e leis que afetaram principalmente os direitos das mulheres. Começaram proibindo que elas trabalhassem e logo suas contas bancárias e bens foram bloqueados. Agora tudo o que tinham era controlado pelo marido ou um homem que se tornasse responsável por elas. Toda a sociedade foi reorganizada e o único papel das mulheres é servir ao homem a que pertencem. Elas também perderam o direito de ler, afinal não é mais necessário.

Uma crise ambiental afetou a saúde de todos e a taxa de natalidade no país despencou. As poucas mulheres que permanecem férteis são forçadas a virarem Aias, escravas que servem apenas para reprodução. Elas são destinadas a cada comandante do novo governo e dentro do período fértil são estupradas para que possam conceber. Após o nascimento a criança é entregue ao comandante, a Aia é transferida para uma nova casa e ganha um novo nome para indicar a quem ela pertencerá.


Após a reorganização da sociedade, as mulheres foram divididas pela posição que ocupam e por cores. Há as esposas dos comandantes que sempre estão vestidas com roupas na cor azul; as Marthas que trabalham com serviços domésticos, vestidas na cor verde; as Tias que são responsáveis por educar as Aias, vestidas com marrom; as Aias estão sempre de vermelho, com exceção da touca branca com abas grandes o suficiente para evitar que sejam vistas.

A história toda é apresentada pelo ponto de vista da Offred ("Of Fred", na tradução livre: De Fred), uma Aia que não revela o seu nome verdadeiro, apenas a conhecemos pelo nome que foi atribuído a ela. Em meio às lembranças da sua vida anterior ao novo governo, o leitor é levado a descrições precisas de quais são as suas obrigações e a submissão que precisa manter. Desde as compras para a casa do comandante até o ritual onde ela é estuprada para que possa engravidar. O que torna a história tão real e assustadora (em alguns momentos) são as descrições bem feitas e a forma como facilmente podemos associa-la aos dias atuais. Offred conta como foram incapazes de entender o golpe que estava sendo preparado, incapazes de perceber o que estava acontecendo até que tivessem suas obrigações restringidas e alteradas.



"Tento não pensar demais. Como outras coisas agora, os pensamentos devem ser racionados. Há muita coisa em que não é produtivo pensar."

Ela se lembra da família que já não lhe pertence, se lembra do marido – Luke – e da sua filhinha que foi tirada dela e enviada para uma nova família. Ela conta como as mulheres foram ensinadas a não pensar, a forma como algumas Aias não suportaram a nova vida e cometeram suicídio. E em seguida, as medidas que o novo governou teve que tomar para evitar que mais suicídios ocorressem. As Aias já não tem acesso a qualquer material cortante, as janelas tiveram os vidros substituídos por material inquebrável e não há mais objetos que facilitem enforcamentos. Elas ficam em seus quartos até que sejam solicitadas. Quando saem para compras domésticas estão sempre em duplas, para que sejam sempre vigiadas pela Aia que a está acompanhando e para que possam vigiar suas companheiras também.

"Não temos permissão para ir lá exceto em pares. Supostamente, isso é para nossa proteção, embora a ideia seja absurda: já somos bem protegidas. A verdade é que ela é minha espiã, como eu sou a dela."

O Conto da Aia fala, sobretudo, do feminismo, fala sobre a soberania masculina na sociedade e forma como as mulheres ainda são subjugadas. Acostumamos a aceitar o que nos é dito e deixamos que tomem decisões por nós. Mas a história também faz o leitor lembrar a importância da resistência, da luta pelos direitos que já temos. É um livro que também não deixa de lado as questões políticas, nos faz pensar sobre os efeitos de qualquer governo extremista e mostra que regimes totalitários existem, independente do tempo, e precisam ser combatidos.

São temas que estão cada vez mais presentes no nosso dia-a-dia, mesmo tanto tempo após a primeira publicação do livro. A onda de intolerância que vem crescendo no País é facilmente associada com a história. O Conto da Aia é uma história intensa e que vai fazer você refletir sobre cada capítulo. Nele você vai entender que sempre existirá resistência.


  1. Eu nunca li o livro, tão pouco assisti a série. Já li algumas outras resenhas sobre e apenas identifiquei que muitos usaram como um palanque, citando nome de políticos que se assemelham, em teoria, com as circunstâncias da historia. Como um libertário, porém economista, eu teria que assistir e também ler para dar uma opinião sincera e se realmente há lógica nas comparações. De qualquer maneira, qualquer coisa que vá contra ao direitos individuais precisa ser impedido e se o livro consegue passar isso, é muito válido.

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  2. Não conhecia o livro, mas é interessante ela falar de uma temática tão importante como a intolerância e a resistência. Parece ser um livro que todos deveriam ler, adorei conhecer! Kissus

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  3. Esse livro dá total sentido à frase "lutar pelos direitos que já temos", né? Porque se parar pra pensar... Por que precisamos lutar por algo que já é nosso? Mas quando se trata de governos autoritários nada é sempre nosso, né? Eu sempre digo que paz não existe, o que existe é o momento entre guerra, que funciona como uma metáfora pra tudo na vida. Espero que a gente consiga evitar que nossa vida se aproxime de The Handmaid's Tale ao máximo, e que essa leitura ajude mais pessoas a continuar abrindo seus olhos!

    ps.: eu amei esse post aaaaaaaaaaah!!!!!!!!

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  4. Esse com certeza é um dos próximos livros que irei conprar. A série é uma das minhas favoritas, e é maravilhosa. Tenho certeza que o livro não é nada menos que uma obra de arte! É bom ver tanta gente falando sobre machismo, feminismo e homofobia graças a uma história tão bem construída!
    Sua resenha está incrível 3

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@oventodoleste