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Elementar, meu caro Watson

Deixe que eles queimem tudo

Imagem/Fonte Freddy Kearney

“Os que não constroem precisam queimar. Isso é tão velho quanto a história e os delinquentes juvenis.” (Fahrenheit 451)

Nos últimos dias, as redes sociais começaram a espalhar a notícia sobre as grandes empresas de tecnologia destruindo livros para alimentar o conhecimento da Inteligência Artificial. Se você ainda não se deparou com essa informação, o que aconteceu é que empresas de inteligência artificial estão comprando livros físicos, digitalizando o seu conteúdo e destruindo os exemplares após a digitalização, a fim de utilizar as cópias digitais para treinar a IA.

Nos Estados Unidos, a Justiça abriu precedentes ao decidir que é um direito da empresa Anthropic utilizar os livros da forma que preferir após comprá-los legalmente. Aqui abrimos um parênteses, pois a decisão foi tomada após um acordo de US$1,5 bilhão, pois o processo aponta que a Anthropic adquiriu cerca de 500 mil livros através de sites piratas.

A decisão também incitou a discussão sobre os direitos autorais dessas obras, uma vez que fica entendido que as empresas poderão controlar o uso desses dados digitalizados sem o conhecimento dos autores.

Segundo as reportagens, houve um aumento significativo na compra de livros raros e fora de catálogo pelas grandes empresas de tecnologia  Ou seja, livros raros sendo destruídos para alimentar modelos de inteligência artificial. Livros que nunca mais voltarão de forma integral para a sociedade. Livros que, essas empresas, passam a controlar o acesso que teremos ao seu conteúdo, uma vez que a IA não fornece o seu conteúdo integral ao ser solicitado, ela responde apenas com base na análise realizada em cima das informações consultadas.

Se tudo isso não preocupa você, pense: grandes empresas controlando o que você vai consumir, limitando as informações que você terá acesso sobre determinados assuntos. Você perde o direito de escolha a partir do momento que o teu direito de ter acesso a aquele conteúdo foi tirado de você.

Isso me remete muito a grandes distopias que encontramos na literatura. Como por exemplo, Fahrenheit 451, um dos maiores e melhores exemplos do que a tecnologia pode fazer com a sociedade. Nele somos apresentados a um mundo onde os livros são proibidos, onde o governo decide quais informações você terá acesso e bombeiros são responsáveis por queimar todo e qualquer livro que encontram.

E assim voltamos à citação que abre essa postagem, uma analogia à situação atual. Quando a IA e as empresas que a controlam não conseguem construir informações, elas  começam a destruir toda e qualquer fonte de conhecimento que encontram para tornar seus modelos de inteligência artificial a única fonte de saber, a detentora de todas as informações que um dia você poderá ter a curiosidade e a necessidade de consultar.

Lembre-se de que, quando já tiverem destruído tudo o que julgam necessário, o que restará? Afinal, “você não precisa queimar livros se o mundo começa a se encher de gente que não lê, não aprende, não quer saber, não é mesmo?” (Fahrenheit 451)


Reportagens consultadas para construir esse post:

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